Eu e os povos originários - parte 3

 Eu e os povos originários – parte 3


O presente texto, o terceiro dessa nossa série, encerra parte da nossa discussão acerca dos povos originários. Apesar de centrarmos nossas análises no Brasil, como pede o conteúdo programático de Geografia do 7º ano, perceba que em diversos momentos fiz questão de não fazer uma referência exclusiva ao Brasil, até porque esse conceito de nação que temos não era (e em muitos casos não é) algo que foi construído pelos povos que aqui habitam há pelos menos trinta mil anos. A construção desse conceito de nação é, inclusive, tema de aulas futuras, e foi feito à revelia das culturas e etnias indígenas, muitas vezes desrespeitando as mesmas, como será fácil perceber.

Das perguntas que fizemos há dois textos, algumas já foram devidamente respondidas. Vamos fazer uma breve revisão.

- Como essas pessoas chegaram ao continente americano?

Vimos que as teorias mais plausíveis indicam a migração pelo Estreito de Bering, atravessando do Extremo Nordeste Asiático até o Extremo Noroeste Americano. Muitos desses povos eram da etnia mongol.


- O que aconteceu com muitas dessas etnias?

Nosso texto passado deu exata noção do que ocorreu com muitos desses indígenas: foram exterminados. A colonização é praticamente sinônimo de genocídio.

Cabe, portanto, retomar duas questões antes de analisarmos a realidade da população indígena em nosso país nos dias atuais.

A pergunta seguinte é:

“quantos eram quando as embarcações portuguesas chegaram ao litoral brasileiro?”

Apesar de eu ter dado alguns dados, é muito difícil precisar a quantidade de indígenas que viviam em solo brasileiro. Os dados indicam entre 5 milhões e 10 milhões, mas nunca saberemos ao certo. A título de curiosidade, o primeiro censo oficial feito no Brasil, aquele que conta a população, só foi feito mais de trezentos anos após a chegada dos portugueses. E, óbvio, só atingiu os grandes centros urbanos.

Abaixo os dados desse censo[1]

Ano

Brancos livres

Mulatos livres

Índios livres

Total livres

Escravos negros

Total

1818

1.043.000 – 27,3%

585.500 – 15,3%

259.400 – 6.9%

1.887.900 – 49,5%

1.930.000 – 47,9%

3.817.900 – 100%

1850

2.436.000 – 31%

2.732.000 – 34%

302.000 – 3,8%

5.520.000 – 68,8%

2.500.000 – 31,2%

8.020.000 – 100%

1872

3.787.289 – 38,1 %

4.245.428 – 42,8%

386.955 – 3,9%

8.419.672 – 84,8%

1.510.806 – 15,2%

9.930.478 - 100%


  O  que já ficou extremamente nítido é que, independentemente de serem cinco milhões ou dez milhões, muitos foram exterminados.

Agora, cabe discutir a ideia desse conceito de país, nação. Havia um Brasil antes de 1500?

Antes de 1500

NÃO! Nem de perto. E mesmo em 1570, 1590, 1660... O conceito de identidade nacional brasileira é algo muito mais novo do que pensamos. E não nasce pleno, formadinho no dia da nossa independência, em 7/09/1822. O Brasil como Estado-Nação demorou muito para ser constituído. E há inúmeros relatos desse dificultoso processo.

Darei aqui três exemplos.

1º - A vila de São Paulo de Piratininga, onde hoje se localiza a cidade mais importante do país, a cidade de São Paulo, era vista como área perigosa pelos portugueses e, posteriormente, políticos brasileiros. Relatos constantes de uma cidade onde se falava mais as línguas indígenas do que o português. Onde era extremamente comum a presença de estilos de vida ligados à cultura indígena do que aqueles presentes na sociedade europeia. São Paulo foi indígena até a 1ª metade do século XIX.

Abaixo, lavadeiras na Ponte do Carmo, em 1906, lavando roupas no rio Tamanduateí.

2º - Regiões houve que tentaram não uma, mas diversas vezes, separar-se da Coroa Portuguesa, bem como do Brasil Imperial. Desde a própria fuga de negros escravizados para as regiões de mata, formando quilombos, até a organização da Revolução Farroupilha (1835 – 1845), buscando separar partes do Sul do Brasil do restante do país, a construção de uma identidade nacional não é um processo fácil, nem natural. É a imposição de uma força política maior sobre o restante das diversas populações.

Imagem representando a Revolução Farroupilha

3º - E aqui entramos na questão dos indígenas. A língua portuguesa não era (e não é) o idioma dessas pessoas. Aliás, estudos dão conta de que só no que hoje chamamos de Brasil havia mais de DUZENTOS, DUZENTOS IDIOMAS! E um dos elementos básicos que define uma nação é sua língua nacional.

Há outras importantes e necessárias observações:

- havia etnias inimigas umas das outras. Dificilmente tupiniquins e tupinambás dividiriam o memo estado nacional;

- o conceito de território para as etnias indígenas é bem diferente do que culturas como a nossa possui. A terra assume um papel muito maior do que o interesse nos seus recursos naturais. Para culturas como a yanomami, a mata, a floresta, os bichos, a água dos rios e tudo o mais é morada dos deuses. E a eles pertence.

Esse pequeno vídeo explica, portanto, o que é uma terra indígena.


E nesse outro o porquê da importância de protegermos as terras indígenas.


Exercícios de revisão

Faça uma pesquisa sobre uma terra indígena brasileira. Ideal que você cite informações importantes (qual foi oficialmente promulgada? Quem mora lá? Em que região do Brasil ela fica?).



[1] MALHEIRO, Perdigão. Escravidão no Brasil. In Quevedo, Júlio. A escravidão no Brasil: trabalho e resistência/ Júlio Quevedo, Marlene Ordõnez. – São Paulo: FTD, 1996. – (Para conhecer melhor). p. 38.

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