Eu e a população negra no Brasil - parte 2
Eu e a população negra no Brasil – parte 2
Olá! Começamos nosso segundo texto dessa série analisando a imagem ao lado!
O que vemos nessa primeira imagem é um quadro pintado in loco, ou
seja, o pintor viu a cena, onde o francês Jean-Baptiste Debret (1768 – 1848)
representa uma família brasileira do século XIX sendo servida por seus escravos.
Bem, logo abaixo, a notícia acerca de um caso
hediondo recentemente descoberto. Vamos ler a notícia!
“Madalena Gordiano tinha oito anos quando bateu em uma porta para pedir
comida. Alguém convidou para entrar aquela menina negra que tinha uma irmã
gêmea e outros sete irmãos. A dona da casa, uma professora branca, prometeu
adotá-la. Sua mãe aceitou. Mas ela nunca foi adotada nem voltou à escola.
Cozinhar, lavar, limpar banheiros, tirar o pó, arrumar a casa da família de
Maria das Graças Milagres Rigueira se tornou sua rotina diária durante as
quatro décadas seguintes. Esta vítima da exploração racista era uma escrava do século XXI na casa
de uma família abastada em um prédio de apartamentos em uma cidade de Minas
Gerais. Nunca teve salário, dias de folga ou férias, de acordo com os
procuradores que investigam o caso. Quando Gordiano foi resgatada, em 27 de
novembro (de 2020), era uma mulher de 46 anos com cabelos muito curtos e grande
dificuldade para se expressar.
‘Fui pedir pão porque tinha fome, mas ela me disse
que não me daria se eu não ficasse morando com ela’, contou a vítima ao Fantástico, que revelou o caso na
véspera do Natal. O portal UOL descobriu
outros detalhes perversos da história.
O inferno desta empregada doméstica compõe um exemplo extremo do legado que mais de três séculos
de escravidão deixaram no Brasil. Principal destino do tráfico negreiro, o país foi
o último das Américas a libertar, há 132 anos, a mão de obra trazida à força da
África. As últimas amas de leite brasileiras são de uma geração atrás, mas o
trabalho doméstico ainda é um ofício tradicional das mulheres negras.
Essa família respeitável na aparência e com fama de tradicional não se
aproveitou apenas do trabalho de Gordiano. Ela a transformou em uma fonte de
renda. Os Milagres Rigueira a obrigaram a se casar com um parente idoso quando
ela ainda estava na casa dos vinte anos. Ele tinha 78 anos e uma pensão. Uma das melhores do Brasil, de militar.
Combatente na Segunda Guerra Mundial, recebia mais de 8.000 reais por mês, que a mulher com quem
nunca conviveu herdou depois de sua morte. Oficialmente, esse dinheiro era
dela, mas só recebia migalhas. Os patrões ficavam com quase tudo.
Segundo o UOL, o dinheiro da empregada doméstica sem salário
pagou o curso de medicina da filha da família. Porque, em outro fato que parece
ter saído diretamente das relações entre senhores e escravos, Gordiano foi
cedida a outro filho da família, o professor de veterinária Dalton Milagres
Rigueira. Durante a escravidão era comum doar escravos aos filhos como presente
de casamento ou incluí-los no testamento com o resto dos bens. Muitas vezes
eles eram a parte mais valiosa do patrimônio.
A historiadora Claudielle Pavão considera que este ‘é um caso
extremo de racismo estrutural que expõe de forma muito didática o que é a
branquitude brasileira, forjada em um sistema escravagista’. Ela acrescenta que
‘muita gente dirá que acolher uma menina para fazer as tarefas domésticas em
troca de comida e cama é muito melhor do que deixá-la na rua. É um pacto social
que está tão normalizado que as pessoas não o consideram ofensivo’.
Uma pesquisa jornalística revelou que a irmã gêmea de Gordiano,
Filomena, também vivia como empregada doméstica com outro ramo da mesma
família, mas recebia um salário. Ela deixou seus patrões há uma década.
O professor Dalton Milagres Rigueira e sua esposa, Valdirene Lopes, em uma foto de 2014 publicada no Facebook. Gordiano foi resgatada na casa do casal em Patos de Minas (MG).
Depois da abolição, o Estado brasileiro atraiu mão-de-obra europeia com
a concessão de terras e outras vantagens com o objetivo declarado de branquear
a sociedade. Enquanto isso, os escravos recém-libertados foram deixados à própria
sorte sem qualquer ajuda pública, enfatiza a historiadora. A desigualdade
profundamente enraizada que persiste no Brasil de 2021 (e em 2024) deriva
desses séculos brutais.
Negros e mestiços são mais pobres que seus
compatriotas brancos: representam 56% da população, mas 75% dos
assassinados, 64% dos desempregados, 60% dos presos, 15% dos juízes e 1% dos
atores premiados, de acordo com dados da agência Lupa. Suas famílias ganham a
metade do dinheiro que as brancas. E vivem menos.
O caso da empregada doméstica submetida ao trabalho análogo à escravidão
causou comoção no Brasil, como aconteceu um mês antes com a morte de um cliente
negro, João Alberto Silveira Freitas, 40 anos, espancado por
dois seguranças brancos às portas de um supermercado Carrefour.
A empregada doméstica escravizada foi localizada pelas autoridades na
casa em que o professor de medicina veterinária vivia com a esposa em Patos de
Minas, uma cidade de 100.000 habitantes em Minas Gerais.
Gordiano dormia em um pequeno quarto sem janela. Não tinha telefone
celular nem televisão. Sua única propriedade eram três camisetas. Seu único
alívio, ouvir a missa numa Igreja Católica, onde aparentemente ninguém
suspeitava do inferno em que vivia. Foi resgatada graças à denúncia de um morador
de seu prédio; ela era proibida de conversar com qualquer vizinho. Os moradores
sabiam de suas dificuldades porque ela passava bilhetes por baixo das portas.
Com letra trêmula, ela lhes pedia dinheiro para comprar sabonete e outros
produtos de higiene pessoal. As autoridades suspeitaram da pensão de viúva de
Gordiano anos atrás, mas o assunto foi arquivado por falta de provas. Uma
ocasião perdida de salvá-la.
O professor Dalton Milagres Rigueira, acusado com
sua mãe, Maria das Graças, do crime de manter a vítima em condições análogas à
escravidão, explicou, ao ser interrogado, que a empregada doméstica
era como se fosse da família. Ele acrescentou que ‘não (a) incentivou a estudar
porque não achava que isso a beneficiaria’, de acordo com o Fantástico. A
universidade onde ele trabalha o suspendeu. O advogado da família considera ‘prematura
e irresponsável a divulgação do caso pelos procuradores’ sem haver condenação e
pede ‘uma reflexão cautelosa neste momento de confraternização cristã’. Mais de
55.000 brasileiros que trabalhavam em condições similares à escravidão foram
resgatados nos últimos 25 anos, incluindo 14 empregadas domésticas no ano
passado.
As empregadas domésticas, em sua
maioria negras, são uma figura central na sociedade brasileira. O
reconhecimento legal de seus direitos trabalhistas foi uma grande conquista
para milhões de lavadeiras, passadeiras, babás, cozinheiras, jardineiros e
motoristas particulares, mas provocou a indignação de alguns patrões. O
classismo cotidiano é visível e de vez em quando é verbalizado. ‘Todo mundo
indo pra Disneylândia. Empregada doméstica indo pra Disneylândia. Uma festa
danada. Peraí. Vai passear ali em Foz de Iguaçu, vai passear ali no Nordeste,
cheio de praia bonita’, disse o ministro da Economia, Paulo Guedes, em fevereiro de 2020, feliz
com a alta do dólar.
Uma das primeiras cartas que se conhecem no Brasil
em que um escravo denuncia maus-tratos é a que foi escrita por Esperança Garcia, com uma caligrafia bem
cuidada, em setembro de 1770 ao governador do Piauí. Alfabetizada ilegalmente
pelos jesuítas, ela é uma das personalidades históricas recentemente resgatadas. Garcia protestava contra
o maltrato físico, além de implorar para que lhe fosse permitido se encontrar
com o marido e batizar a filha. Acredita-se que ela tenha conseguido.
O cativeiro de Gordiano terminou graças a um vizinho anônimo, o que lhe
permitiu desfrutar do Natal em um abrigo para mulheres à espera de poder se
reunir, assim que a pandemia permitir, com alguns dos irmãos com os quais
mendigava pão há quatro décadas.”[1]
Exercícios de revisão
Imagine escrever uma carta para essa senhora, chamada Madalena Gordiano.
O que você escreveria para ela? As melhores cartas serão publicadas em nossos
materiais.
[1]
https://brasil.elpais.com/internacional/2021-01-14/madalena-escrava-desde-os-oito-anos-expoe-caso-extremo-de-racismo-no-brasil-do-seculo-xxi.html



Comentários
Postar um comentário