Eu e os portugueses no Brasil - parte 1

 Eu e os portugueses no Brasil – parte 1

É lugar comum afirmar que fomos colonizados pelos portugueses. Somos, justamente por esse processo, a maior nação lusófona (que fala a língua portuguesa) do mundo. Muitos dos nossos nomes e  sobrenomes têm origem portuguesa. Alguns dos principais clubes esportivos do nosso país fazem alusão à Portugal e suas principais figuras históricas. Ruas e avenidas levam nomes relacionados à Portugal e personalidades daquele país europeu.

Cientes disso, nos cabe rapidamente analisar como foi o início da chegada desses europeus ao nosso país. E é isso que faremos agora. Mas antes...

Pra deixar claro

Há termos que precisam ser devidamente explicados. Explicados mesmo. E isso serve para evitar confusões. Imigrante, migrante, migrar, emigrar... Palavras diferentes e que possuem significados diferentes. A tabela abaixo (e que deve ser copiada em seu caderno) serve para evitar que façamos desnecessárias confusões, e que o professor precise explicar toda vez o que cada um dos termos significa. Além disso, ela traz uma FUNDAMENTAL RESSALVA, com a inclusão de termos e definições cruciais. Vamos à tabela.

Termo

Significado

Exemplo

Migrar

Deslocamento que não rompe fronteiras nacionais, sendo um deslocamento de um estado para outro, de uma cidade para outra

Luís Fernando, discente do 7º E, migrou do Piauí para São Paulo. Luís é um migrante.

Imigrar

Deslocamento entre países, onde você passa a habitar outra nação.

Abel Ferreira, técnico da Sociedade Esportiva Palmeiras, imigrou de Portugal para o Brasil. Ele é um imigrante

Emigrar

É quando brasileiros deixam nosso país.

Recentemente Vinícius, que era discente do 7º D, deixou nosso país para morar na Espanha. Ele é um emigrante.

FUNDAMENTAL ESSA DIFERENÇA

Crianças, homens e mulheres negros escravizados africanos NÃO IMIGRARAM PARA O BRASIL. Eles foram trazidos à força, de maneira extremamente violenta e cruel, sem o menor respeito às suas vontades. A esse processo damos o nome de diáspora.

Por diáspora entendemos a dispersão (o deslocamento) de um povo em consequência de preconceito ou perseguição política, religiosa ou étnica.

No caso dos africanos trazidos ao Brasil damos o nome de Diáspora Africana.

A chegada ao Brasil

O processo de chegada dos portugueses ao Brasil está encaixado em um ciclo histórico relativamente extenso, iniciado no século XIII, e que teve como ponto máximo o final do século XV. A esse ciclo damos o nome de Expansão Ultramarina. O “descobrimento”[1] do Brasil fez parte desse processo. E, acredite, nem de perto foi o evento mais importante. Pelo menos logo após a chegada de Cabral e seus comandados aqui.

Um pouco mais dessa história  

O grande incentivador da expansão ultramarina portuguesa foi D. Henrique (1394 – 1460), infante de Portugal, não à toa denominado de patrono da expansão portuguesa. Portugal teve desde o início enorme interesse pelo continente africano.

Conquistadas as áreas, os portugueses estabeleciam feitorias (entrepostos comerciais) e fortalezas. Tais estruturas asseguravam para os portugueses o controle da região. Das áreas eram comercializados marfim, ouro e escravos.

Imagem representando a expedição de Vasco da Gama.

A partir de 1453, com a conquista da cidade de Constantinopla (hoje Istambul) pelos turcos otomanos, as nações europeias passaram a ter significativos problemas para realizar as atividades comerciais com o Oriente, já que os muçulmanos impediram a passagem dos europeus pela região. A descoberta de um novo caminho para as Índias tornou-se essencial para a retomada das atividades comerciais. Com o rei D. João II, Portugal passou a iniciar o processo que levaria as conquistas pelo continente asiático (Índias). Entre 1497 e 1498 Portugal, com Vasco da Gama, consolidou a possibilidade de contornar o continente africano e chegar às Índias, estabelecendo importante rota comercial. Vasco chegou à Calicute e o sucesso de sua expedição levou a organização de uma nova viagem para a região. Esta era a expedição comandada pelo capitão-mor Pedro Álvares Cabral, que partiu de Portugal com 1200 homens e 13 embarcações. Seria essa expedição que chegaria às terras brasileiras, no dia 22 de abril de 1500[2].

O navegador português e sua comitiva chegaram no litoral sul da Bahia, tendo avistado o Monte Pascoal, uma pequena elevação, cerca de 62 quilômetros distante do litoral (da cidade de Porto Seguro).


O início das relações entre Portugal e as terras que este havia “descoberto”, através da expedição de Pedro Álvares Cabral, não indicava um futuro muito promissor, já que não foram encontrados metais preciosos  em quantidades significativas. Além disso, à primeira vista, as terras americanas não apresentavam nenhuma especiaria que pudesse ser  efetivamente comercializada, o que gerava o seguinte problema: o que fazer com as novas terras? Daí, o pouco interesse em explorar a nova colônia, terras que, a princípio, interessavam muito menos do que a rota das especiarias e o comércio oriental. Era necessário encontrar algo que pudesse ser comercializado, ao contrário do Oriente, onde já existia um rico mercado de especiarias montado.

O  navegador  florentino Américo Vespúcio (1454  -  1521), que navegou tanto para espanhóis quanto para portugueses, e que havia alertado para a inexistência de algo proveitoso nas terras brasileiras, fez questão de afirmar a existência de uma grande quantidade de uma árvore específica: o pau-brasil.

Uma árvore muito parecida era conhecida pelos europeus desde os tempos medievais, uma planta encontrada nas ilhas do sudeste asiático – a árvore encontrada no Brasil é, portanto, um “parente” muito próximo dessa espécie asiática – e com as mesmas qualidades. Tal árvore é capaz de tingir linhos, sedas e algodões de vermelho. Tratava-se, portanto, de uma especiaria.

Funcionando dentro da lógica mercantil, a exploração do pau-brasil na costa brasileira foi feita através do monopólio real. A Coroa arrendou a exploração do pau-brasil no território brasileiro aos cristãos-novos (judeus convertidos ao cristianismo – voltaremos a discutir em um texto futuro a presença marcante dos judeus na colonização do Brasil), que deveriam pagar uma taxa anual e levar, no mínimo, seis embarcações por ano para a metrópole, cheias de pau-brasil.

O primeiro cristão-novo a fechar um contrato com a Coroa portuguesa foi Fernão de Noronha (1470 - 1540). Isso ocorreu em 1502, sendo que Fernão arrendou a exploração de pau-brasil por três anos, à frente de um consórcio de judeus conversos. O acordo foi renovado três vezes, sendo que depois de 1513, a extração do pau-brasil foi liberada, desde que os exploradores pagassem o quinto – 20% daquilo que foi explorado – à Coroa portuguesa.

Temos aqui, portanto, o primeiro processo radical de alteração da paisagem natural brasileira. Em menos de cem anos a devastação foi tamanha que era bem difícil encontrar a árvore nas regiões próximas ao litoral. Não à toa, a Mata Atlântica, bioma onde se encontra essa espécie, foi eliminada em muitas áreas do nosso litoral.

A tabela abaixo dá uma ideia do que foi esse processo de destruição. Citamos apenas três estados. Há outros.

A DESTRUIÇÃO DA MATA ATLÂNTICA

Estado

Área ocupada pela Mata Atlântica em 1500

Área ocupada pela Mata Atlântica nos dias atuais

Alagoas

53%

3%

Rio de Janeiro

100%

53,3%

São Paulo

68%

30%

Mutum-do-Nordeste: se a Mata Atlântica nordestina foi intensamente destruída[3], não é de se espantar que muitos dos seus habitantes também foram extintos. Esse é caso do mutum-do-Nordeste (Pauxi mitu). Extinto da natureza, os últimos indivíduos estão sendo mantidos em cativeiro para tentar a reintrodução da espécie em seu habitat natural. Mas há um dilema! Como reintroduzir se praticamente toda a Mata Atlântica nordestina deixou de existir? É como retornar para uma casa que não existe mais.   



Exercícios de Revisão

1) Faça uma pesquisa sobre a região brasileira onde os portugueses pisaram pela primeira vez. Pode utilizar imagens, mapas etc.

2) Pesquise informações sobre o pau-brasil. Se quiser, pode fazer um desenho representando a árvore.

 



[1] Já discutimos essa ideia de descobrimento.

[2] Há registros que indicam que Vasco da Gama comentou a possibilidade de existirem  terras abaixo daquelas descobertas por Colombo (em 1492) com Pedro Álvares Cabral. Alguns aventam a possibilidade de que Vasco tenha avistado o arquipélago de Fernando de Noronha, distante cerca de 500 km da costa brasileira.

[3] Em breve, entenderemos melhor outros motivos para essa destruição.

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