Eu e os povos originários - Parte 2
Eu e os povos originários – parte 2
Não é novidade pra ninguém que a América foi colonizada pelos europeus a partir do século XV. No Brasil, mais especificamente, esse processo ocorreu a partir de 1532. Esses eventos de colonização estão encaixados como um dos resultados da Expansão Ultramarina. A própria chegada dos europeus (espanhóis, em 1492) marcou um dos capítulos mais importantes dessa expansão.
Aos olhos dos navegadores europeus um “Novo Mundo” surgia, derrubando
teorias e paradigmas, redefinindo maneiras de se enxergar o Homem. As
populações nativas americanas causaram espanto e mostraram outras (possíveis)
formas de organização e convívio sociais nunca imaginadas pelo homem europeu,
recém-saído do universo medieval.
Nesse texto, dividido em dois blocos, iremos primeiramente
falar das comunidades nativas americanas (especialmente dos
tupinambás). E, em um segundo momento, do trágico episódio da conquista da
América pelos europeus.
É válido lembrar que assistimos a um importante documentário sobre os tupinambás
no litoral sul da Bahia, em um processo extremamente importante de resgate da
memória e de suas origens.
Caso você queira rever esse documentário, basta acessar o vídeo abaixo:
Os tupinambás
Poderíamos aqui falar de inúmeras
comunidades nativas americanas. Da maravilhosa e
fascinante cultura Sioux, indígenas que habitavam as planícies
norte-americanas, caçando búfalos. Ou mesmo dos Incas, povo fascinante que
habitava praticamente toda a região andina, responsáveis por uma
cultura maravilhosa, capaz de projetar cidades com água potável e à prova
de abalos sísmicos. No entanto, para que o nosso texto não se torne um livro
iremos falar de uma das comunidades nativas americanas: os tupinambás. No
momento em que Cabral e seus comandados aqui pisaram os tupinambás eram
considerados os “senhores do litoral”[1]. “A cultura
tupi-guarani ter-se-ia formado há mais de três mil anos, na Amazônia central”[2], chegando posteriormente
ao litoral.
Os tupinambás viviam em aldeias com cerca de cinquenta indivíduos, sendo as mesmas circulares e protegidas por paliças de troncos, com fossos que continham pedaços pontiagudos de madeira. A vida comunitária estava diretamente ligada e estruturada na produção agrícola, além da caça, da pesca e da coleta de frutos silvestres. A técnica agrícola utilizada pelas comunidades tupinambás consistia em atear fogo a uma determinada região em que a mata havia sido previamente derrubada. Depois limpavam a área e iniciavam o plantio, cultivando mandioca, batata-doce, vagens etc. Essa técnica é conhecida como coivara.
Os tupinambás não possuíam animais de transporte e nem a criação dos
mesmos. As aldeias não ficavam sempre no mesmo lugar. Assim que o solo ou os
recursos se esgotavam, os tupinambás partiam para uma outra região.
A sociedade tupinambá era formada por excelentes pescadores, nadadores,
mergulhadores e caçadores. “Construíam jangadas e canoas cavadas em troncos
de certas árvores. Durante as viagens nas canoas, os homens esvaziavam com as
cuias a água que entrava nas embarcações.
Os tupinambás conheciam a cerâmica, a cestaria, o trabalho com algodão e
fabricavam armas e instrumentos domésticos e musicais.
Manejavam com grande habilidade suas armas de caça e de guerra –
tacapes, arcos, flechas, escudos, machados de pedra polida etc. Nas batalhas
soavam tambores, flautas, cornetas e buzinas”[3]. Praticavam rituais antropofágicos.
A conquista da América
Vimos anteriormente que, quando os europeus chegaram ao Novo Mundo, as
terras já eram habitadas. No entanto, a ocupação europeia foi feita
desrespeitando qualquer cultura ou sociedade existente no Novo Mundo. “Inicialmente,
a própria presença física do europeu no continente foi responsável por milhares
de mortes em virtude de várias doenças. A varíola, a pneumonia, a gonorreia, o
tifo e a gripe devastaram populações inteiras. Por outro lado, os europeus
eram vulneráveis à sífilis, que causou a morte de milhares deles”[4].
Uma das populações que foi praticamente eliminada durante o processo de
conquista foi a dos tupinambás. Como definimos, os tupinambás controlavam praticamente
todo o litoral brasileiro, uma cultura milenar arrasada em meio século após a
chegada dos portugueses ao Brasil. O quadro era tão assustador que em 1584 o
padre Fernão Cardim registrou espantado o extermínio: “e eram tanto os dessa
casta que parecia impossível poderem se extinguir”[5].
Ao lado, ilustração de Theodore de Bry mostrando o extermínio de uma comunidade indígena.
As formas de execução que os indígenas sofriam eram as mais variadas e
cruéis possíveis. Crianças eram separadas de suas mães, homens e mulheres eram
escravizados, aldeias eram atacadas durante a noite e o dia.
Infelizmente o extermínio indígena não foi apenas uma característica da
colonização portuguesa. Tornou-se comum por toda a América, eliminando diversas
etnias. Veja o relato abaixo, referente à colonização espanhola:
As campanhas do espanhol Fernão Cortez (imagem), em 1520, para ocupar as terras americanas demonstravam a violência usada pelos conquistadores. Ele invadiu o México combatendo contra a sociedade asteca, massacrando-a. na década de 1530 foi a vez de Francisco Pizzaro massacrar o povo inca, em busca das minas de ouro e prata no Peru e na Bolívia. Inúmeras nações indígenas foram totalmente obrigadas a abrir mão de suas crenças religiosas. Esse verdadeiro horror que o conquistador europeu causou aos povos americanos ficou muito claro no relato feito pelo frei Bartolomé de Las Casas: “(...) os espanhóis, esquecendo que eles eram homens, trataram essas inocentes criaturas com crueldade digna de lobos, de tigres e de leões famintos (...) não deixaram de os perseguir, de os oprimir, de os destruir com todos os meios criados pela cobiça humana e por outros que se quer chegaram a imaginar; hoje não se conta senão duzentas indígenas na Ilha Espanhola (São Domingos) que outrora abrigava três milhões (...)”[6].
Não à toa, a marca da conquista foi o extermínio de milhares (milhões
talvez) de indígenas, dos incas aos tupinambás, dos jês aos iroqueses, dos
astecas aos sioux. Conquista que se estendeu por longos e agonizantes séculos,
manchada com o sangue indígena. Por esse motivo afirmamos que as civilizações
indígenas americanas não morreram de morte natural. Elas foram assassinadas!
[1] Moraes, José Geraldo Vinci de.
“Caminhos das civilizações: da pré-História aos dias atuais”. São Paulo: Atual,
1993. pp. 157 - 158
[3] Moraes, José
Geraldo Vinci de. “Caminhos das civilizações: da pré-história aos dias atuais”.
São Paulo: Atual, 1993. p. 157.
[4] in Maestri, M.
“Terra do Brasil: a conquista lusitana e o genocídio tupinambá” – São Paulo:
Moderna, 1993. p. 83
[5] in Maestri, M.
“Terra do Brasil: a conquista lusitana e o genocídio tupinambá” – São Paulo:
Moderna, 1993. p. 88




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