Eu e os povos originários - parte 4
Eu e os povos originários – parte 4
O texto
abaixo traz dados bem atualizados acerca da população indígena brasileira. No
entanto, é válido afirmar, alguns desses dados podem estar incompletos, posto
que, como exemplo a população Yanomami habita territórios dentro e fora dos
limites do Brasil, e com frequência caminha por esses territórios. Assim, são
povos cujo o conceito de nacionalidade brasileira não pode (e nem deve) ser
aplicado como elemento identitário. São povos americanos.
Os dados
do Censo 2023 (que servirá de base para a maioria das nossas informações aqui)
dão conta de que existem 1.693.000 de indígenas no Brasil, a maioria localizada
na região da Amazônia Legal (uma das figurinhas do nosso álbum aborda a chamada
Amazônia Legal), especialmente no estado do Amazonas.
Essa
população está dividida em cerca de 260 etnias conhecidas, e representa quase
1,0% (0,83%, pra ser mais exato) da população brasileira. Aqui já há pontos que
precisam ser devidamente e cuidadosamente sinalizados. Vamos a eles.
Se
analisarmos a porcentagem de povos indígenas brasileiros com a média mundial, perdemos
feio. Enquanto que cerca de 6% da população mundial (cerca de 476 milhões de pessoas)
no mundo são povos originários, esse índice não chega a 1% no Brasil.
Se
compararmos com o Censo realizado em 2010 houve sim um crescimento da população
indígena em nosso país. Mas isso porque só a partir de 1991 a opção em se
declarar indígena entrou nos termos de autodeclaração do IBGE. Veja esse
fragmento e entenda.
“De
acordo com dados do último censo realizado pelo IBGE, a população indígena
brasileira é de um milhão 693 mil pessoas. Um crescimento de 88 por cento em
relação ao que foi apurado 12 anos atrás, no censo de 2010. O presidente da
CPI, Plínio Valério, do PSDB do Amazonas, disse que existem relatos de pessoas
que teriam sido coagidas para se declararem indígenas. A pesquisadora do IBGE,
Marta Antunes, explicou que a opção indígena sequer existia no primeiro censo
do país, realizado em 1872 e que ela só apareceu na categoria 'cor ou raça' do
censo do IBGE a partir de 1991”.
As
questões acima levantadas são só um dos problemas do censo acerca das
populações indígenas no Brasil. Há casos também de grupos que não querem
estabelecer contato, e toda a contagem é feita a partir de dados coletados de
parentes que aceitaram participar do censo, ou da análise de vestígios (ocas, fotos
aéreas). Há inclusive uma tabela, disponibilizada no Wikipédia, com dados sobre
esses grupos. E a informação número de indivíduos por vezes aparece preenchida
com a palavra “desconhecido”.
Abaixo a
imagem de um grupo isolado.
Mas e os dados consolidados, o que eles nos mostram?
Nos mostram
que a maioria dos povos indígenas brasileiros vivem no Norte do Brasil,
principalmente na área da Amazônia Legal, como citamos anteriormente. Nessa
área vive cerca de 45% dos indígenas, algo próximo à 723 mil pessoas. E só o
estado do Amazonas reúne 490 mil pessoas que se autodeclararam indígenas.
Esses
dados nos mostram também que Uiramutã, no estado de Roraima, é a cidade
brasileira com a maior população indígena. Dos 13.751 moradores, 96,6% se
autodeclaram como povos originários!
Mas há
dados que escancaram a desigualdade que assola milhares de indígenas ainda hoje
no Brasil. Dados que mostram séculos de colonização, extermínio e ausência de
quaisquer políticas públicas para atender a essas populações.
Dois
Brasis
Trarei
aqui alguns desses dados, e, tenho certeza, a muito o que se discutir quando
olhamos para eles.
Índice de
analfabetismo
Enquanto
os dados mais recentes indicam que 9,6% da população brasileira com quinze anos
ou mais é analfabeta, esse índice sobe para 32,3% quando está relacionado aos
indígenas. O acesso à educação, e uma educação voltada à essas comunidades
ajudam a explicar essa considerável diferença. Se pegarmos em números
absolutos, em um grupo de cem pessoas, na média nacional, entre 9 e 10 seriam
analfabetas. Em um grupo indígena esse número passaria de 30 pessoas!
Recentemente
outro dado chamou a atenção.
Ainda não abordaremos as questões envolvendo os povos quilombola.
O que
explica essas diferenças? Acesso à serviços básicos de saúde podem (e devem) nos
ajudar a explicar. Métodos contraceptivos, como preservativo e pílulas
anticoncepcionais, por vezes distribuídos gratuitamente em unidades de saúde
(as chamadas UBS) não chegam muitas vezes a essas populações pelo simples de
que não há acesso a esses serviços.
O mesmo
ajuda a explicar o porquê o índice de idosos entre a população indígena é
menor. Idosos precisam de mais cuidados médicos, uma população que necessita de
acompanhamento de médicos de forma mais regular. Sem médicos, sem acesso aos
exames, bem... Expectativa de vida muito menor.
Assim, se
entre a população brasileira existe oitenta idosos (sessenta anos ou mais) para
cada cem jovens, entre os indígenas esse índice cai para 35 idosos para cada
cem jovens.
Há quem
traga também a análise de que a segurança dos territórios indígenas protegidos
por lei permite que as famílias se desenvolvam, que casais queiram e possam ter
filhos, e que essas crianças cresçam, aumentando assim a taxa de jovens entre
os povos originários. Mas seria utópico demais imaginar que ser um indígena no
Brasil é algo como ser um homem branco, de ascendência europeia, morando em uma
cidade.
A população indígena brasileira ainda é
vítima de inúmeros e graves crimes. A manchete da matéria abaixo explica um dos
inúmeros crimes cometidos contra as populações originárias brasileiras.






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